Descrição


ANTEPARO – CENA CONTEMPORÂNEA


O estado atual das artes está em processo contínuo de especialização, mas nem sempre é contemplado pelos campos referenciais e perceptivos dos estudantes recém-ingressos no campo dos estudos teatrais.

No panorama das artes cênicas as noções de “personagem” e “texto dramático”, que há pouco eram consideradas fundantes da cena, não mais dão conta dos processos contemporâneos de criação. “Teatro pós-dramático”, “teatro performativo”, “performer”, “teatro colaborativo”, o espaço cênico não convencional e as novas mídias utilizadas das mais inusitadas maneiras na cena teatral, abriram outros caminhos para o trabalho do ator-performer e para o desenvolvimento da cena.

Na maioria das vezes é possível constatar que, em relação ao trabalho do ator, as referências iniciais dos estudantes recém-ingressos nos cursos de teatro se dão da seguinte ordem: o ator de televisão, depois o de cinema, por último aparece o de teatro. Não é de se estranhar, uma vez que sabemos muito bem o que significa o impacto da televisão e o espaço que a telenovela ocupa em nossa sociedade. Esta constatação possibilita apenas afirmar que as noções iniciais sobre o ofício do ator estão muito relacionadas à construção de personagens e à necessidade do texto dramático para o desenvolvimento dos processos de criação - noções que certamente não são inválidas, mas não são mais suficientes para referenciar o panorama teatral contemporâneo.

Esta “Cartografia Visual: 1ª Paisagem” se estabelece como uma espécie de campo de confronto, promotor de pequenas fissuras nos campos referenciais e perceptivos dos estudantes recém-ingressos, sobre: a cena teatral contemporânea, o trabalho do ator-performer, a abordagem do espaço cênico e a utilização das novas tecnologias e as visualidades da cena.


(Eduardo De Paula)

Luis Antônio - Gabriela


Análise do espetáculo: Guilherme Rodrigues Pereira; Projeto: Cartografia Visual: 1ª Paisagem (PROGRAD-DIREN/UFU; 2013-2014); Coordenação, Orientação e Coautoria: Eduardo De Paula (Teatro-IARTE/UFU).




Sinopse

“Luis Antônio - Gabriela”: espetáculo produzido pela Cia. Mungunzá de Teatro, dirigido por  Nelson Baskerville e estreado em 2011, é um documentário cênico que trata da vida de “Luis Antônio-Gabriela” - homossexual assumido e irmão do diretor (Baskerville) - algumas vezes espancado por seu pai durante a adolescência, no período da ditadura militar, devido à sua sexualidade. Luis Antônio se muda para a Espanha com 30 anos de idade e "desaparece". Pouco se sabe dele durante os 20 anos que passa por lá, mas sabe-se que já com a identidade de Gabriela faz vários shows na Europa e morre em 2006 vítima da AIDS. A montagem foi descrita pela critica como um dos espetáculos mais criativos e marcantes dos últimos tempos, fazendo pensar sobre questões, como: a maneira que a família encara a homossexualidade dentro de casa e o livre arbítrio. Além do espetáculo utilizar uma relação de proximidade com a platéia, utilizou relatos reais de pessoas íntimas ao “personagem”. Segundo o ator, Marcos Felipe, o objetivo desse trabalho foi fazer um espetáculo que tratava da dualidade presente na relação da família e da travesti, não apontando nem um culpado, mas convidando o espectador a tirar suas próprias conclusões.

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O trabalho do ator

O espetáculo foi criado por meio de improvisações e o diretor “costurou” as cenas. A história da peça foi abordada de três maneiras distintas: os atores narrando a história, os atores encarando a situação como personagens e por meio de vídeos. O ator Marcos Felipe contou em uma entrevista que o seu objetivo foi fugir da armadilha de compor uma travesti caricatural e conseguir fazê-lo de uma forma artística e até bem-humorada, sem perder o lado sensível da situação que trazia à tona o preconceito com a sexualidade e levantava a discussão a respeito dessa temática tão atual, mas que ainda se mostra muito delicada. Marcos Felipe também não utilizou salto-alto, mas ficava na meia ponta como se o estivesse usando e para mostrar que o “personagem” estava em desequilíbrio instável.

Fonte: http://ciamungunza.com.br/fotos/index.php?album=luiz-antonio-gabriela-priscila-prade&image=_PRI8027.JPG


Mídias e visualidades da cena

No espetáculo são utilizados microfones,  letreiro de “led”, projeções de vídeos com imagens captadas ao vivo, projetadas simultaneamente e até mesmo a projeção de cenas que registram Luís Antônio fazendo show como Gabriela, na Espanha.



Privilegiando a proximidade com o público o espaço cênico foi composto como uma galeria de arte, com instalações e telas com imagens de mulheres/travestis nuas, criadas pelo artista plástico Thiago Hattner. Também utilizou vários outros elementos como equipamentos hospitalares, luz de neon e letreiro de led, por exemplo. Os atores utilizaram maquiagem de modo a ressaltar o mundo das travestis. Os figurinos são compostos por roupas íntimas, vestidos chamativos, acessórios, entre outros elementos extravagantes que, outra vez, remetem ao universo hibridizado das travestis.

Apesar de não ser um musical o espetáculo utilizou música ao vivo, com os atores cantando e tocando alguns instrumentos. As linguagens da dança, do cinema e das artes plásticas estavam muito presentes. 

Fonte: http://ciamungunza.com.br/fotos/index.php?album=luiz-antonio-gabriela-bob-souza&image=DSC_0162.jpg; 
Fonte: http://ciamungunza.com.br/fotos/index.php?album=luiz-antonio-gabriela-bob-souza&image=DSC_0734.jpg


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Ficha técnica: Direção: Nelson Baskerville; Diretora Assistente: Ondina Castilho; Assistente de Direção: Camila Murano; Elenco: Marcos Felipe, Lucas Beda, Sandra Modesto, Verônica Gentilin, Virginia Iglesias e Day Porto; Direção Musical Composição e Arranjo: Gustavo Sarzi; Preparador Vocal: Renato Spinosa; Trilha Sonora: Nelson Baskerville; Preparação de Atores: Ondina Castilho; Iluminação: Marcos Felipe e Nelson Baskerville; Cenário: Marcos Felipe e Nelson Baskerville; Figurinos: Camila Murano; Visagismo: Rapha Henry - Makeup Artist; Vídeos: Patrícia Alegre; Fotos: Bob Sousa; Produção Executiva: Sandra Modesto e Marcos Felipe; Produção Geral: Cia Mungunzá de Teatro.

Crédito das imagens: Cia Mungunzá, Brasil: http://goo.gl/brMG25; http://goo.gl/bG2jOL; http://goo.gl/wcXfG4.