Descrição


ANTEPARO – CENA CONTEMPORÂNEA


O estado atual das artes está em processo contínuo de especialização, mas nem sempre é contemplado pelos campos referenciais e perceptivos dos estudantes recém-ingressos no campo dos estudos teatrais.

No panorama das artes cênicas as noções de “personagem” e “texto dramático”, que há pouco eram consideradas fundantes da cena, não mais dão conta dos processos contemporâneos de criação. “Teatro pós-dramático”, “teatro performativo”, “performer”, “teatro colaborativo”, o espaço cênico não convencional e as novas mídias utilizadas das mais inusitadas maneiras na cena teatral, abriram outros caminhos para o trabalho do ator-performer e para o desenvolvimento da cena.

Na maioria das vezes é possível constatar que, em relação ao trabalho do ator, as referências iniciais dos estudantes recém-ingressos nos cursos de teatro se dão da seguinte ordem: o ator de televisão, depois o de cinema, por último aparece o de teatro. Não é de se estranhar, uma vez que sabemos muito bem o que significa o impacto da televisão e o espaço que a telenovela ocupa em nossa sociedade. Esta constatação possibilita apenas afirmar que as noções iniciais sobre o ofício do ator estão muito relacionadas à construção de personagens e à necessidade do texto dramático para o desenvolvimento dos processos de criação - noções que certamente não são inválidas, mas não são mais suficientes para referenciar o panorama teatral contemporâneo.

Esta “Cartografia Visual: 1ª Paisagem” se estabelece como uma espécie de campo de confronto, promotor de pequenas fissuras nos campos referenciais e perceptivos dos estudantes recém-ingressos, sobre: a cena teatral contemporânea, o trabalho do ator-performer, a abordagem do espaço cênico e a utilização das novas tecnologias e as visualidades da cena.


(Eduardo De Paula)

Inferno na Paisagem Belga

Análise do espetáculo: Guilherme Rodrigues Pereira; Projeto: Cartografia Visual: 1ª Paisagem (PROGRAD-DIREN/UFU; 2013-2014); Coordenação, Orientação e Coautoria: Eduardo De Paula (Teatro-IARTE/UFU).



Sinopse

A peça Inferno na Paisagem Belga é uma criação da Companhia de Teatro Os Satyros. Os responsáveis pela montagem foram o diretor Rodolfo García Vázquez e os atores Henrique Mello, Robson Catalunha, Tiago Capela Zanotta e Ivam Cabral. O romance de Paul Verlaine (1844 - 1896) e Arthur Rimbaud (1854 - 1891), dois poetas franceses que tiveram uma relação amorosa no século XIX, foi utilizado como mote para a montagem. Junto a isso, o espetáculo foi estruturado a partir de conceitos da filosofia de René Descartes sobre as paixões da alma. Segundo tal filósofo, este sentimento tem seis estados brutos: admiração, desejo, amor, alegria, ódio e tristeza. Relacionando-os com os poetas em questão, o grupo se debruçou também sobre os conceitos do “teatro expandido”* e da “performatividade”.


* Questão norteadora das pesquisadas da Cia de Teatro Os Satyros, que considera a utilização da recentíssima tecnologia utilizada na cena como um dos elos da cadeia relacional “cena-espectador”.


fonte: http://goo.gl/qhxBrs


O trabalho do ator
O trabalho do ator pode ser considerado como performativo, pois eles não atuam apenas personagens ficcionais, mas colocam-se em jogo de cena a partir do momento vivo e do tempo presente, nos quais a relação com o público é determinante para o fluxo do espetáculo. O trânsito entre os traços biográficos e ficcionais, o previsível e o imprevisível são vistos como elementos que retroalimentam a cena.



fonte: http://goo.gl/MyBq7u 




Mídias e visualidades da cena

São utilizados recursos de Iluminação, sonoplastia, projeção de imagens e um tablet, com o qual um dos atores lê algumas poesias. A sensação é a de estar assistindo um videoclipe, pois a mistura das mídias contemporâneas, embaladas pela sonoplastia do século XX (The Doors e Joy Division) colaboram para esta impressão. Em determinado momento, quando são abordados o ódio e a tristeza, a plateia é filmada e simultaneamente projetada na cena, o que parece revelar a intenção da companhia em fazer com que o espectador se torne consciente da importância de sua presença – tanto para o espetáculo que se descortina, quanto para a sociedade na qual vive e atua.

Os figurinos colocam em xeque os universos do real/ficcional ao eleger elementos tão cotidianos, como: camisas brancas, calças jeans, cuecas brancas e óculos escuros. A concepção do espetáculo foi também inspirada na vida e na obra de Marina Abramovic, o que parece contribuir para o jogo de tensões presente entre os traços reais/ficcionais, referentes aos poetas Paul Verlaine e Arthur Rimbaud, e os reais/biográficos dos atores e dos espectadores – ambos depoentes e colaboradores no desenvolvimento do espetáculo.


http://www.satyros.com.br/2012-2/
http://www.satyros.com.br/2012-2/



















Entevista:



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Ficha técnica: (Os Satyros, Brasil): Direção: Rodolfo García Vázquez; Assistente de direção: Óscar Silva; Atores-criadores: Ivam Cabral, Henrique Mello, Robson Catalunha e Tiago Capela Zanotta; Roteiro: Rodolfo García Vázquez; Sonoplastia: Diego Mazutti; Iluminação: Flávio Duarte; Cenário: Rodolfo García Vázquez; Figurino: Ivam Cabral; Intervenções em vídeo: Henrique Mello; Cenotécnica: Carlos Orelha e Tiago Capela Zanotta; Estagiária de Cenografia: Nina Simão.

Crédito das imagens: (Os Satyros, Brasil): http://goo.gl/J7nMr3; http://goo.gl/tjpbMBhttp://goo.gl/yJnRDj.