Descrição


ANTEPARO – CENA CONTEMPORÂNEA


O estado atual das artes está em processo contínuo de especialização, mas nem sempre é contemplado pelos campos referenciais e perceptivos dos estudantes recém-ingressos no campo dos estudos teatrais.

No panorama das artes cênicas as noções de “personagem” e “texto dramático”, que há pouco eram consideradas fundantes da cena, não mais dão conta dos processos contemporâneos de criação. “Teatro pós-dramático”, “teatro performativo”, “performer”, “teatro colaborativo”, o espaço cênico não convencional e as novas mídias utilizadas das mais inusitadas maneiras na cena teatral, abriram outros caminhos para o trabalho do ator-performer e para o desenvolvimento da cena.

Na maioria das vezes é possível constatar que, em relação ao trabalho do ator, as referências iniciais dos estudantes recém-ingressos nos cursos de teatro se dão da seguinte ordem: o ator de televisão, depois o de cinema, por último aparece o de teatro. Não é de se estranhar, uma vez que sabemos muito bem o que significa o impacto da televisão e o espaço que a telenovela ocupa em nossa sociedade. Esta constatação possibilita apenas afirmar que as noções iniciais sobre o ofício do ator estão muito relacionadas à construção de personagens e à necessidade do texto dramático para o desenvolvimento dos processos de criação - noções que certamente não são inválidas, mas não são mais suficientes para referenciar o panorama teatral contemporâneo.

Esta “Cartografia Visual: 1ª Paisagem” se estabelece como uma espécie de campo de confronto, promotor de pequenas fissuras nos campos referenciais e perceptivos dos estudantes recém-ingressos, sobre: a cena teatral contemporânea, o trabalho do ator-performer, a abordagem do espaço cênico e a utilização das novas tecnologias e as visualidades da cena.


(Eduardo De Paula)

Instruciones para abrazar el Aire




Análise do espetáculo: Camila Amuy; Projeto: Cartografia Visual: 1ª Paisagem (PROGRAD-DIREN/UFU; 2013-2014); Coordenação, Orientação e Coautoria: Eduardo De Paula (Teatro-IARTE/UFU).




Sinopse


Instruções para abraçar o ar - livre tradução do título original: "Instrucciones para abrazar el aire. O espetáculo conta a reconstrução de um acontecimento ocorrido em 1976, em uma casa na cidade de La Plata, Argentina: o rapto de uma menina. Os dois atores presentes em cena desdobram-se nos vários personagens, revelando um jogo cênico que permite ao espectador perceber as diferentes instâncias presentes na cena: a artificialidade da linguagem teatral e a veracidade do tema retratado. Estes dois atores, ora representam os dois velhos que se perguntam por uma menina perdida no tempo, ora os cozinheiros que preparam coelhos em conserva e revelam o caos que se estabelece na cozinha no momento de preparo da comida – estes, permanentemente fazem referências a uma suposta menina que brinca no quintal ao lado, enquanto aos poucos ficamos sabendo que a menina era neta dos outros dois.


Trabalho do ator

A linguagem parece ter optado pela simplicidade na movimentação cênica, mas sem deixar esvaziados seus significados. Os mesmos atores (Charo Francés e Arístides Vargas) interpretam três personagens diferentes cada um, transitando entre os velhos, os cozinheiros e os vizinhos. A repetição é usada como recurso da atuação como, por exemplo, em momentos em que os atores transitam por diferentes estados psicofísicos de extrema calma e poucas ações até falas mais rápidas e vigorosas. São utilizadas frutas e verduras reais e artificiais – que manipuladas a partir dos princípios do teatro de formas animadas, ganham outras conotações.





Mídias e visualidades da cena


São utilizados microfones para captar e ampliar as vozes dos atores. A iluminação, em dado momento, é utilizada de modo similar ao teatro de sombras ao projetar uma árvore de cabeça para baixo em uma tela no fundo palco.


O cenário é composto por uma bancada repleta de frutas e instrumentos de cozinha. Durante a peça os atores colocam em cena pequenas casinhas penduradas pelo palco com velas acesas dentro, remetendo aos inúmeros casos de raptos de crianças ocorridos na América Latina. Os elementos que colaboram com as diferenciações e as mudanças de cenas (entre cozinheiros, vizinhos e velhos) são a iluminação e o figurino. A iluminação demarca o espaço cênico, transitando entre os diferentes cenários: cozinha, vizinhos e o suposto quintal. O figurino se transforma, mas em essência é o mesmo, possuindo um pensamento “tecnológico” tal que, por meio de pequenos ajustes e sobreposições, é possível transitar com agilidade tanto de um personagem para outro, quanto pelos diferentes ambientes.


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Ficha técnica: Grupo Malayerba. Ecuador. Texto: Arístides Vargas; Direção: Arístides Vargas e Ma. Del Rosario Francés; Assistência de Direção: Gerson Guerra; Elenco: Arístides Vargas e Ma. Del Rosario Francés; Iluminação: Gerson Guerra.


Crédito das imagens: Cia Malayerba, Equador: http://goo.gl/I0IGW7; http://goo.gl/Z6iwFIhttp://goo.gl/YgBqSP.